O IPRC foi o promotor deste estudo, com a colaboração científica da APAPE, o patrocínio do Laboratório Sanofi-Aventis e o apoio da firma de Consultadoria Científica Key-point, que ajudou a definir o protocolo do estudo e que assegurou a sua implementação no terreno.

Tendo verificado numa revisão da literatura, que relativamente à prevalência da fibrilhação auricular (FA), os números indicados pelos diversos países eram muito variáveis e não se tendo encontrado dados relativos a Portugal, procurámos com o estudo FAMA colmatar esta falta de informação sobre a realidade nacional, o que nos pareceu importante para se poder melhorar o nível de diagnóstico e manejo desta arritmia entre nós. Por outro lado, a incidência e mortalidade por acidente vascular cerebral (AVC) apresentam no nosso país valores elevados, não atribuíveis apenas aos factores de risco tradicionais, razão pela qual nos pareceu também de interesse avaliar a prevalência de FA, situação que poderá estar relacionada com essa elevada incidência de AVC.

Optámos por estudar a prevalência da FA na população acima dos 40 anos, dada a raridade da arritmia antes dessa idade. Simultaneamente, procedemos a uma recolha de dados para tentar caracterizar esta arritmia na população portuguesa, assim como o modo como está a ser abordada e tratada entre nós. Optámos por realizar um estudo observacional, baseado numa amostra representativa da população portuguesa (mais de 10 mil indivíduos de todas as regiões do país) em que a existência dessa arritmia era pesquizada através da realização de um ECG de 12 derivações, sendo simultaneamente recolhidos dados demográficos, socioeconómicos, clínicos e terapêuticos.

O estudo iniciou-se em 17 de Junho de 2009 e ficou concluído em Dezembro do mesmo ano, tendo os resultados sido apresentados numa hot-line do XXXI Congresso Português de Cardiologia e publicados na Revista Portuguesa de Cardiologia:
“Prevalência de fibrilhação auricular na população portuguesa com 40 ou mais anos. Estudo FAMA”
Autores: Daniel Bonhorst, Miguel Mendes, Pedro Adragão, João de Sousa, João Primo, Eva Leiria, Pedro Rocha. Rev. Port. Cardiol.2010; 29: 331 – 350

A prevalência de FA encontrada nesta amostra da população portuguesa com mais de 40 anos foi de 2,5%. Com base nos dados oficiais publicados, poderá extrapolar-se que o número de casos com FA em Portugal deverá ser de cerca de 120.000. O estudo FAMA mostrou assim que a FA apresentava uma prevalência relativamente elevada na população portuguesa, com valores intermédios relativamente aos apurados nos estudos realizados noutros países.

A análise dos dados recolhidos pelos inquéritos, permitiram-nos tirar algumas ilações interessantes, por exemplo que a população portuguesa com mais de 40 anos apresentava excesso de peso – mais de metade dos inquiridos tinha peso acima do normal (44% tinha excesso de peso e 20% era obeso); o valor médio deste parâmetro era superior nos indivíduos com FA, permitindo associar esta arritmia à presença de obesidade. Outra constatação foi a de que a população dos grupos etários analisados é predominantemente sedentária; assim, só um quarto dos inquiridos fazia algum exercício físico, verificando-se ser menor a percentagem nos indivíduos com FA.

O estudo mostrou ainda que mais de metade da amostra global (63%) não tinha por hábito o consumo de bebidas alcoólicas, não conseguindo confirmar a relação entre o consumo de álcool e a ocorrência de FA, verificando-se até que este era inferior nos indivíduos com esta arritmia.

Confirmou-se a esperada associação da FA com algumas situações patológicas subjacentes (hipertensão arterial, dislipidemia, diabetes, hipertiroidismo e DPOC) assim como a constatação da presença mais frequente de antecedentes de acidente vascular cerebral ou de enfarte do miocárdio nesta população relativamente à amostra global. Salienta-se que, pela análise de regressão logística, apenas se identificaram como factores preditores do risco de FA, a idade, o IMC e a presença de hipertensão arterial; a prática de exercício físico mostrou uma relação inversa.

Uma constatação importante foi que uma parte significativa dos indivíduos em que se detectou FA (mais de um terço) desconhecia ter essa arritmia; assim dos 261 doentes com FA, esta não tinha sido diagnosticada em 38,3%. Isto poder-nos-á levar à inferência preocupante que, a nível da população portuguesa com mais de 40 anos, poderão existir mais de 40 mil casos não identificados de FA.

Relativamente aos casos diagnosticados e apesar de o diagnóstico de FA ter sido feito na maioria dos casos por um cardiologista (61%), um quarto dos doentes não fazia qualquer tratamento dirigido a esta situação arrítmica. Nos 161 doentes que tinham o diagnóstico de FA, verificou-se que para além do uso de beta bloqueante e digoxina (provavelmente para controlo da frequência), o único antiarrítmico mencionado foi a amiodarona, utilizada em 10% dos doentes.

Outra observação relevante do estudo FAMA foi o facto de, apesar de pelas recomendações internacionais a grande maioria dos doentes com FA dever receber um antitrombótico, os anticoagulantes orais apenas estavam a ser administrados a 37,8% dos doentes com FA diagnosticada, o que confirma a subutilização destes fármacos no nosso país, também referida em diversas publicações e atribuída ao receio dos seus efeitos pro-hemorrágicos. Os antiagregantes plaquetários, reconhecidamente menos eficazes e utilizados em geral apenas em grupos de baixo risco tromboembólico, tinham sido prescritos em 21,8 % dos doentes.

Em resumo, estudo FAMA mostrou que a FA apresenta uma prevalência relativamente elevada na população portuguesa, tendo-se identificado algumas características que distinguiam este grupo da amostra global, permitindo traçar um perfil caracterizado por uma idade mais avançada, excesso de peso (IMC mais elevado), menor de prática de exercício físico regular, e associação mais frequente com algumas patologias, não se tendo observado maior incidência actual de tabagismo nem maior consumo de bebidas alcoólicas, mais de um terço desconhece que tem esta arritmia e dos que conhecem, um quarto não faz qualquer tratamento, nomeadamente um antitrombótico.

Sendo a FA uma situação com prevalência significativa e sabendo-se hoje que se associa a uma acentuada morbilidade, ela tem de ser diagnosticada e adequadamente tratada, o que de acordo com os resultados do nosso estudo não parece ser o caso em Portugal. “Será assim importante que sejam adoptadas estratégias no sentido de melhorar entre nós a taxa de diagnóstico de FA, assim como do seu tratamento.”